Wes Anderson e outras peripécias
"O Esquema Fenício", de Wes Anderson; e linhas tortas sobre "O Ensaio", "Missão: Impossível" e mais
A essa altura do campeonato, existe alguém que não tenha opinião formada sobre Wes Anderson? Eu pensava no assunto quando parei para assistir a “O Esquema Fenício”, novo filme do diretor, na semana passada. Entre detratores e apaixonados, a única diferença são os filmes do cineasta que elegem para discutir —a intensidade e a paixão da argumentação é a mesma.
Métrica do sucesso para alguns, razão da decadência para outros, mas imagino que essa impossibilidade da posição neutra afete um tanto o Wes Anderson —o que reverbera em seus filmes. Desde a aclamação de “O Grande Hotel Budapeste”, os seus trabalhos levam um ritmo diferente, com novas demandas em seu ciclo eterno de obsessões. Os orçamentos, gordos e em formato de carta branca, devem ajudar bastante nisso; o diretor tem liberdade e espaço para criar seus mundinhos, sempre da forma que melhor entender, como um Jacques Tati contemporâneo.
Mas enquanto todo mundo —eu incluso— fica entre o fascínio e o assombro com a megalomania de obras como “A Crônica Francesa” e “Asteroid City”, é importante notar também que Wes Anderson revira a própria fórmula no qual ora ou outra tentam trancafiá-lo dentro.
O projeto recente de curtas baseados em contos de Roald Dahl, lançado pela Netflix, me parece o melhor exemplo disso, pela simplicidade da proposta e pela complexidade da encenação. Mas os longas mais novos também praticam essa filosofia, incluindo no tema. Em narrativas bem mais mirabolantes, o diretor faz eulogias fúnebres de velhos mundos e troca de lado nos seus dramas familiares, se prostrando agora entre os pais antes dos filhos rebeldes. Nesse ponto, “Asteroid City” soa como um primeiro ponto alto por unir tudo em uma exploração do teatro.
Já “O Esquema Fenício” tem gosto de uma limpeza do paladar, pelo menos para Wes Anderson. A história fragmentada do filme com Benicio del Toro é bem simples, comparada aos antecessores dos últimos quinze anos. A discussão é mirabolante, mas porque o tema é árido por natureza. O ator porta-riquenho vive um magnata que roda o mundo para viabilizar a construção de um complexo industrial no Oriente Médio, negociando percentuais entre os sócios depois que tarifas novas atingem o orçamento megalomaníaco da empreitada.
Daí é muito fácil abordar o filme pelo prisma do criador e da criatura, encaixando a figura de Anderson no protagonista da história e espiralando uma alegoria sobre o financiamento da arte. A lógica tem sentido, até porque del Toro vive indo e voltando de delírios no além —seu personagem vive sofrendo tentativas de assassinato.
Mas essa ideia parece diminuída no escopo maior do filme, até porque o foco é a relação do magnata com a sua filha, vivida por Mia Threapleton. Ela quer viver como freira para se purgar dos pecados do pai, mas de repente ele a torna como a sua única herdeira e os seus hábitos começam a corrompê-la em cenas daquele humor seco lindo dos trabalhos do cineasta.
O andamento das negociações também se relaciona pouco com os pecados passados do protagonista. O roteiro se organiza em torno de caixas de sapato, usados pelo magnata como forma de navegar pela estrutura do negócio com os seus sócios. A narrativa tem contornos de uma trama de ação, mas à moda de Wes Anderson; tirando o prólogo, uma queda de avião, poucas cenas devem despertar doses de adrenalina na plateia.
Por isso mesmo o filme desperta a sensação de um retorno às bases por parte de seu diretor. Eu acho difícil descobrir agora o porquê, sem saber os próximos projetos de Wes Anderson. Mas “O Esquema Fenício” diverte exatamente pela simplicidade, sem grandes voos ambiciosos e dentro da estrutura imensa dos projetos atuais do diretor —sets lindos e imensos, elencos volumosos e recheados de astros, o de sempre. Ele abraça por opção a história divertida de espionagem —um “spy caper”, vai—, não como meio para um fim.
De bom, sobra a boa comédia executada com precisão por Wes Anderson, em cenas como a da partida de basquete de bilionários idosos vividos por del Toro, Tom Hanks e Bryan Cranston. Me impressionou muito também as passagens no além vida, de longe a maior ousadia do filme: são sequências em preto e branco que testam a criatividade do design de produção, enfeitando a troca dos atores e a montagem com salões brancos e adereços propositalmente teatrais.
A energia do filme é equivalente à de um carro com o farol baixo, poupando energia para quando necessário; mas Wes Anderson ainda é Wes Anderson, e o diretor sabe muito bem disso.
“O Esquema Fenício” está nos cinemas.
Já faz alguns dias desde que vi o episódio final da segunda temporada de “O Ensaio”, mas sigo chocado com o programa. Esta última safra foi uma barbaridade. Ela testou bastante os limites do estilo de seu criador, o comediante Nathan Fielder, que deve ter percebido isso rápido, a ver como o seriado revisitou vários estágios de sua carreira —programas como “Canadian Idol”, “Nathan for You” e até “The Curse” foram importantes na linha de raciocínio sobre… aviação.
Mas o meu assombro está concentrado mesmo nos eventos daquele finale que, como alguns já apontaram, deve ser a maior insanidade que alguém cometeu a serviço de uma série de televisão. Pilotar um Boeing com quase 200 passageiros tendo um quinto das horas de experiência necessárias e —no contexto do programa— brincando com o questionário de saúde mental do exame psicotécnico? Os 20 ou 30 minutos do voo passaram rápido entre o riso e o terror.
O grande barato é ver que Fielder tirou uma narrativa empolgante de um tema tão peculiar e anódino para sua trajetória. A relação entre pilotos de avião em voos comerciais parece assunto sério a ele, a ver pelas poucas entrevistas que ele deu à imprensa, mas o programa foi a espada de dois gumes perfeita, entre chamar a atenção ao tema e fabricar entretenimento insólito. Enquanto série, “O Ensaio” só cresceu nessa jogada, permitindo ao comediante investigar a fundo a própria figura e o culto que constrói desde “Nathan for You”. Ainda mais a fundo que o primeiro ano, pelo menos, que já era uma obra-prima de irreverência e reviravoltas sinistras montadas em algum lugar entre a ficção e a realidade.
Cada esquete completamente fora da casinha da temporada veio de um tormento interior de Fielder. Tipo quando ele reviveu a trajetória de vida completa do Chesley Sullenberger, o piloto que aterrissou o avião no rio Hudson, apenas para entender o que se passa na cabeça de alguém em situações limite do tipo. Ou quando ele criou a manada de imitadores para ajudar um piloto a se envolver romanticamente com uma das atrizes porque interações do tipo encucavam o humorista. Ou ainda a provocação direta ao Paramount+, encenado como uma central nazista porque Fielder era incapaz de bater de frente com a decisão de remover um dos episódios de “Nathan for You” do catálogo. Cenas surreais se multiplicam aos borbotões nos episódios, em um trabalho que apesar do ridículo é observado com atenção quase científica pelo humorista.
Fielder construiu a sua reputação nesse tipo de humor, que preza no fundo pela autossabotagem: as esquetes tem perfil de pegadinha, mas servem para ridicularizá-lo, com o próximo virando um meio para os seus fins. Não à toa, a sensação crescente até então era de que ele se removia cada vez mais da equação dos próprios programas que inventava, se vendo como o próprio problema das situações que tentava resolver, mesmo que ocupasse todas as atenções.
Na primeira temporada de “O Ensaio”, por exemplo, ele se dedicava tanto ao teste de uma mulher para ter filhos que no fim o experimento era todo sobre ele, com a moça abandonando o trabalho. Em “The Curse”, a minissérie termina com o seu personagem sendo literalmente ejetado do planeta. Na figura que construiu na TV, Fielder parece preso à fórmula de “Nathan for You”, obcecado a nível molecular em se desvencilhar da posição de comediante —ou uma pessoa que não é levada a sério.
Essa segunda temporada dá cabo da tarefa de uma forma especial, pelo epílogo que mostra Fielder usando a sua nova experiência de voo para um trabalho que em nada envolve as artes. Mas também termina com um discurso de pertencimento que revira por completo a fórmula. Depois de uma década, Nathan Fielder enfim completa o seu truque de mágica, desaparecendo por completo dentro de seu próprio projeto para atender a sua audiência. Como um desbravador, seu rastro é o que entra para a história, não ele.
No mais, fica a recomendação desta entrevista que Fielder deu à Vulture, um papo de duas horas com um veterano de aviação que rendeu declarações como essa:
“Ninguém gosta de pensar que o seu piloto é estranho, nem um pouco. Você escolherá convencer a si mesmo de que algo não está acontecendo se você testemunhar algo que faz você pensar que é estranho porque a sua vida está na mão deles. E eu acho que os pilotos sentem isso.”
“O Ensaio” está na Max.
Fiquei um tanto constrangido com o deserto de ideias que é “A Lenda de Ochi”, filme com o selo da A24 nos Estados Unidos que chega ao nosso circuito essa semana. A estética toda do longa é tenebrosa, para começo de conversa, em uma sequência interminável de movimentos suaves de câmera em planos abertos que mais parecem uma sucessão de fundos de tela do Windows —ou um filme falso feito com inteligência artificial, mas eu odeio fazer este paralelo. As cores, artificiais, não ajudam.
O longa de Isaiah Saxon sugere se tratar de uma fábula infantil, mas está mais para um portfólio imenso de artes conceituais, que são enfileiradas de qualquer jeito na trama. A história acompanha com indiferença uma menina que foge do zelo do pai para salvar uma criatura chamada Ochi, devolvendo-a a sua família. O pai, vivido por Willem Dafoe, comanda um exército de crianças que protegem o vilarejo da protagonista dos bichos, mas vive em uma situação mal resolvida com os filhos porque a esposa abandonou a família. Depois de 20 minutos, o roteiro já asfixiou tanto a situação por uma lógica de simbolismos enfadonha que o filme ganha contornos de um jogral sem poesia.
Aí é aquilo: se o filme mira o estético, ele aposta tudo nas cores berrantes e esquece como organizar os visuais de uma forma que não seja burocrática; se ele quer uma profundidade temática, o drama é tão emperrado e previsível que você chega à metade da história já sabendo muito bem onde ela termina. Os 90 minutos da duração passam com o triplo de tamanho, cada segundo mais interminável que o próximo. Nem o elenco, que tem ainda Emily Watson, banca a aposta direito. Terminei a sessão encarando o teto em silêncio, desesperado com a armadilha.
“A Lenda de Ochi” está nos cinemas.
As reações da crítica e do público ao último “Missão: Impossível” no último fim de semana me lembraram os cinco estágios do luto, para ser honesto. A conversa parece presa às expectativas alheias e acho que ninguém separa a paixão com a série da proposta da continuação —que são diferentes. Aí no meio de tudo isso entra a negação do luto; tem gente demais questionando se essa é a última aventura de Ethan Hunt quando as circunstâncias falam bem mais alto.
Escrevo isso porque eu gostei do filme, mas vejo mais gente comentando do falatório dos primeiros 90 minutos que das duas cenas de ação escalafobéticas da última hora. Ao contrário de todos os outros filmes, organizados em torno de três grandes cenas, “O Acerto Final” me soa como uma sequência imensa de ação acondicionada em um épico que serve de series finale à franquia. Tudo meio doido até demais, o que é adequado à história que o Tom Cruise construiu nessas produções nos últimos 30 anos.
Por isso perdoo a conversa eterna de metade do longa, mas também não me irrito porque acho que o diretor Christopher McQuarrie sustenta o suspense de maneiras inacreditáveis. O filme chega à sequência do submarino pronto para perder o fôlego do espectador naquela cena, matando quem sobrou no balé dos aviões monomotores do clímax. As montagens paralelas de alguns diálogos beiram ao surreal na aplicação e, para o que é um imenso PowerPoint didático, a trama corre muito bem, obrigado.
Sobre a ação, fiquei na curiosidade de rever juntos o “Acerto de Contas” e “O Acerto Final” porque a sensação que tenho é de que o McQuarrie, com estas continuações, segue os passos do John Frankenheimer em “O Trem”, ainda que de uma forma multiplicada. Ele já elogiou o filme publicamente em sua conta no Letterboxd e o filme tem uma mecânica similar na inserção da ação dentro do drama. A famosa cena do acidente na estação do filme de 1964, que destruiu três locomotivas, surge na história com boa dose de preparação e dentro do ritmo da narrativa, um suspense sobre o resgate de pinturas francesas das mãos dos nazistas na Segunda Guerra Mundial. É como se Frankenheimer só se importasse com a escala do acontecimento e como validá-la dentro da história, o que ele consegue na cena final. O que me lembra muito a forma como McQuarrie chega no submarino e naquelas cenas que mostram o nível de água “rolando” pelos corredores apertados, a grande atração da birutice toda.
Considerando que os últimos “Missão: Impossível” também são declarações nada sutis de Tom Cruise sobre a própria indústria do cinema, me parece possível que o seu diretor roubou algumas ideias das suas inspirações. Todas as quatro sequências de ação desses dois filmes —a perseguição dos carros na Itália, a queda do trem na ponte, o submarino no Ártico e os aviões na África do Sul— são as peças centrais da produção e obviamente foram pensadas primeiro no projeto, mas também entram muito bem justificadas no curso dos acontecimentos. Na prática, é como se Cruise e McQuarrie criassem a engenharia da ação primeiro e depois fizessem a engenharia reversa do procedimento para dentro do roteiro, o que dá no balé para lá de ensandecido —e na grande atração— desses projetos.
Por essas e outras que vou sentir falta desses filmes.
“Missão: Impossível - O Acerto Final” está nos cinemas.
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