Realidade programada
"Backrooms: Um Não-Lugar", de Kane Parsons; e "Golpe Explosivo", de David Mackenzie
No momento, me parece até heresia escrever sobre “Backrooms” sem pelo menos mencionar “Obsessão”. Ao mesmo tempo, me sinto impelido de tal maneira ao paralelo que fico desgostoso de fazê-lo, não concordando muito com o argumento.
Vamos do começo. Lançado esta semana no Brasil e em diferentes partes do mundo, “Backrooms” adapta para as telonas o fenômeno de mesmo nome de 2022, um curta que viralizou no YouTube sob a proposta do horror liminal —o tal “liminal horror”, gênero movido pela angústia com espaços vazios e estranhos por natureza. Mais geracional que isso, só o fato do longa, protagonizado por gente do quilate de Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve, ter direção de Kane Parsons, autor do vídeo original e que lança o “remake” do alto de seus parcos 21 anos.
Como se o fenômeno precoce não bastasse, o lançamento acontece duas semanas depois da estreia de “Obsessão”, filme que marca o debute de outro jovem talento na direção, Curry Barker. Com 26 anos, ele é mais um que apareceu no radar pelo YouTube, desde 2019 produzindo curtas e até mesmo um média-metragem, “Milk and Serial”. O novo trabalho virou fenômeno, passando dos US$ 100 milhões nas bilheterias com um orçamento minúsculo de US$ 1 milhão e uma premissa simples —um menino apela a um feitiço para convencer a garota que gosta a se apaixonar por ele.
Daí que fica muito oportuna a ideia de se juntar os dois filmes, tomando como base as coincidências entre os dois fenômenos envolvidos. Tanto “Backrooms” quanto “Obsessão” são filmes de terror, produzidos com valores pequenos para os padrões industriais (o primeiro é orçado em US$ 10 milhões) e dirigidos por nomes emergentes das redes sociais, nascidos na virada do século (Barker é de 1999 e Parsons, 2005). Seria então a tal geração do YouTube, que move o ponteiro do combalido cinema de gênero em direção a um futuro excitante, provando seu talento no retorno financeiro —em especial porque as duas obras vem de distribuidoras independentes e badaladas, respectivamente a A24 e a Blumhouse.
A imagem toda é muito sedutora, mas por agora acho que só funciona mesmo como bom pitch de publicitário, ao invés de como discussão de cinema. Primeiro porque a tese toda tem furos demais para se equilibrar nos próprios pés, até mesmo antes de pressupor o sucesso explosivo de “Backrooms” —que pode acontecer, não duvido. Unir Parsons e Barker como “talentos do YouTube” presume também que o ecossistema do YouTube —e das redes— é uma malha única de pensamento, com um processo contínuo acelerado pela hiperconectividade de nossos tempos.
Para isso, escrevo sem peso na consciência: balela! Só os cinco ou seis anos que separam Barker e Parsons denotam as diferentes relações que os dois têm com a internet e a produção de vídeos, mesmo que eles coexistam em termos cronológicos —os primeiros trabalhos de Parsons são de 2017, quando tinha 10 ou 11 anos, e Barker só vai produzir curtas a partir de 2019, quando acumulava 20 primaveras. Ainda há a questão geográfica e de formação: apesar de ambos serem americanos, o autor de “Backrooms” vem da Califórnia e o de “Obsessão”, do Alabama. Os dois estados estão a distâncias diferentes da indústria americana, e essa geografia obviamente impacta na forma como os autores se relacionam com o fazer cinema —a própria entrada de Barker no meio se dá por outro percurso, fora dos padrões industriais, mesmo que ele tenha chegado aos holofotes razoavelmente cedo.
O que sobra então entre os dois filmes é o YouTube, a proposta de Meca do momento. Nisso, o oportunismo soa bem óbvio. Inventa-se aí que a plataforma de vídeos funciona como um novo “valley” (do Silício?), sugerindo uma camaradagem geográfica nos moldes das gerações que enchem os livros de história do cinema —como a Hollywood da era de ouro ou os cineastas americanos da década de 1970. Que camaradagem é essa? Só aí já se desconsidera a lógica individualista da plataforma do Google, que agremia pessoas somente pelo valor financeiro de plateia. Barker e Parsons não são membros da mesma egrégora, mas coincidem no recorte de uma temporalidade que, no caso, existe mesmo a partir da explosão de popularidade —“Backrooms” em 2022, “Milk and Serial” e “The Chair” em 2024 e 2023.
Acho fundamental toda essa discussão de vernáculo entre os dois filmes porque sinto que ela antecede um debate que se tornará comum nos próximos anos. Conforme os anos passam e novas gerações de cineastas adentram o cenário das artes, a explosão do YouTube aos poucos deixa de ser novidade para virar um detalhe comum na experiência coletiva dos realizadores. A discussão enfim se move do “como retratar” para o “qual o efeito”: a preocupação não mais se concentra na atualidade da narrativa, em como incluir elementos digitais em narrativas, mas passa a acontecer a partir do testemunho do espectador sobre a influência desses novos modelos de consumo e distribuição na formação e criação artística.
Daí que vira um problema tão grande o falso cognato do YouTube. Afinal, se vamos partir do pressuposto de que a plataforma une todas as experiências, como explicar as diferentes vertentes envolvidas? Além de Kane Parsons e de Curry Barker, é preciso levar em conta outros nomes recentes e paridos pelo site, incluindo os irmãos Danny e Michael Philippou, de “Fale Comigo” e “Faça Ela Voltar”, e as celebridades Chris Stuckmann (de “Terror em Shelby Oaks”) e Markiplier (de “Iron Lung”). Cada um destes nomes tem idades diferentes, trajetórias distintas e experiências únicas na produção de seus filmes, e isso já é um problema para qualquer aglutinação.
Isso que, veja bem, tratamos apenas de filmes de terror com dinheiro americano, com exceção de “Fale Comigo”. Onde ficam as produções de outros gêneros, feitas em outros países? E os cineastas que não surgiram desta corrente, mas fazem uma produção que se relaciona indiretamente com uma coletividade online, o que pode ser o caso por exemplo de Alice Maio Mackay e Jane Schoenbrun? Os buracos são tantos que a tese mais lembra um belo pedaço de queijo suíço.
Tudo isso está impresso na lógica inicial de justaposição, a que confunde “Backrooms” e “Obsessão” como parte do mesmo movimento. Os dois filmes são radicalmente diferentes, em abordagem e —arrisco dizer— em resultados.
Do lado de Curry Barker, seu “Obsessão” é uma obra deliciosa movida por uma única ideia, investindo o mecanismo da premissa contra seu protagonista. O jovem apaixonado, que mantém uma relação platônica pela amiga e que quebra uma vara de salgueiro para consertar o seu “problema”, está ali para agonizar na via crúcis criada pelo próprio cabacismo, no qual o filme forma um circo em que se lambuza com todo o prazer do planeta.
Já “Backrooms” tem uma abordagem complexificada, justamente porque se trata de uma adaptação. O longa reinventa o curta em uma trama que mira a expansão da mitologia das tais salas liminares e infinitas. O que no original era apenas sugerido, um contratempo de produção tornado em arma narrativa, aqui ganha corpo na exposição dos diálogos e nas aventuras dos personagens pelo espaço. Mesmo o clímax é organizado em torno de explicações, revelando a lógica de funcionamento do lugar e apontando caminhos para eventuais continuações —no cinema, no YouTube, onde for.
Por isso mesmo, o filme fica desinteressante quanto mais avança no mistério. O suspense da trama funciona quando na insinuação, até pelo bizarro que surge em cena, e é natural que desande quando o aparato por trás de todas aqueles corredores e portas fica justificado em três vias. O roteiro ainda se incrimina feio ao inventar dramas rasos para tentar passá-los com uma profundidade que nunca dá as caras, em cima de um viés psicológico que em nada se conecta com o horror em cena —um entrave interessante entre capacitação técnica e formulação criativa, se pensarmos na carreira do realizador, mas divago. Nesse ponto, dá pena mesmo é de Renate Reinsve. A atriz sofre para carregar nas costas o clímax com uma personagem desinteressante —uma psicóloga ainda, porque tudo precisa na trama está literalizado— e protagoniza uma série de flashbacks soltos, que não mostram a que vieram depois que cai o pano da cortina.
A seu favor, Parsons sabe como navegar por todos aqueles corredores amarelos sem se perder no gingado dos pés, algo que beneficia e muito a brincadeira. Vale um pequeno spoiler, o clímax também se dá minimamente bem ao pelo menos trazer uma ameaça física aos personagens, o que anima as cenas em torno de uma situação de perseguição. É pouco? Sim, mas dá para se divertir.
A diversão também é uma faca de dois gumes em “Golpe Explosivo” —no caso uma faquinha de pão, feita de plástico reciclável. O filme, novo trabalho de David Mackenzie, aposta no que é a essência da trama hitchcockiana, toda montada em cima do dispositivo do suspense.
A premissa gira em torno da descoberta de uma bomba antiga no centro de Londres, atirada contra a terra do rei na época da Segunda Guerra Mundial. Quando a história começa, ela acaba de ser descoberta por uma equipe de construção, que escava a propriedade para firmar a fundação de um novo prédio. Toda uma equipe militar, liderada pelo ator Aaron Taylor-Johnson, logo é acionada para o local, em caráter de urgência: o dispositivo, dormente, pode acabar com metade da cidade se explodir.
Mas enquanto os soldados estão lá correndo de um lado para o outro, dando ordens para cima e para baixo, uma pequena equipe de ladrões encabeçada pelo ator Theo James opera na região evacuada. Não sabemos como, mas os dois eventos estão conectados, com os larápios em vários momentos dando sinais de que acompanham a movimentação em torno da bomba. Enquanto não se ouve o barulho de uma explosão, os bandidos invadem uma caixa-forte escondida e subterrânea, sequestrando o que presumimos ser alguns milhões de libras esterlinas em dinheiro, joias e diamantes.
Então as atrações do filme são duas, numericamente. De um lado, acompanha-se de perto as duas operações, tensionadas pelo limite da ação (a explosão da bomba, o sucesso do roubo). Do outro, já mais para o fim, há a expectativa sobre o entrelaçamento, de como as histórias se conectam, e a revelação se dá através de uma série de reviravoltas, com traições de todo tipo. A trama de ação, aos poucos, se converte em um suspense de quebra-cabeça, que intriga pelos caminhos tortos.
Mackenzie aqui repete a abordagem funcional que marca a sua carreira desde o sucesso inesperado do faroeste “A Qualquer Custo”, mais um capítulo em uma série de thrillers no qual a competência dos envolvidos é a grande engrenagem da máquina de entretenimento. Mas a máquina, aqui, está um pouquinho enguiçada: a história fica bem definida em três momentos distintos, e depois da resolução inventa-se um flashback que explica a palhaçada toda com o orçamento equivalente ao de um comercial de posto de gasolina suspeito. Os personagens, então, mal parecem humanos, reduzidos ao mito de eficiência máxima e à essência de suas posições no imenso jogo de gato e rato do roteiro —escrever mais que isso entrega as revelações da premissa e, por consequência, estraga de forma incontornável os poucos prazeres da narrativa.
Dito isso, tudo é limpo demais para alguém ficar realmente incomodado com a eficiência do trambique. O diretor ainda vem de “Relay”, um suspense que quase tropeçava na reta final por justamente criar uma consciência (e um terceiro ato cheio de surpresas), então reclamar que a trama de ação é seca, neste momento, beira à incoerência.
Mas fica um gostinho amargo de “quero mais”, sobretudo porque a sensação de passatempo envolvida passa do ponto do frugaz. A competência, neste caso, não parece suficiente para dar um filme, estando ela mesma programada demais para dar conta do recado.
“Backrooms: Um Não-Lugar” e “Golpe Explosivo” estão nos cinemas.



