Queimadura branca
"Todo Mundo em Pânico", de Michael Tiddes
Já aviso de antemão que o texto tem spoilers do novo “Todo Mundo em Pânico”, porque preciso começar pelo fim para chegar ao início de qualquer conclusão sobre o filme.
No clímax da continuação, depois de uma centena de paródias de filmes de horror, de uma dúzia de mortes e de algumas reviravoltas, descobrimos que os responsáveis pela matança generalizada são os irmãos Wayans, co-roteiristas e produtores do filme. Marlon Wayans e Shawn Wayans de repente se despem de seus papéis na trama, o do maconheiro Shorty e do sexualmente indeciso Ray, e começam a criticar as colegas de elenco, Anna Faris e Regina Hall, pelas decisões que tomaram nos outros filmes da série.
A cena é bem humorada (ou tenta, pelo menos), mas transcorre com uma estranha dose de seriedade. Os Wayans primeiro criticam as atrizes por abandoná-los quando foram demitidos da franquia, no terceiro e quarto filme, mas em seguida aceitam suas desculpas pelo oportunismo, uma atitude que avaliam como correta —enquanto Hall se defende alegando o salário cheio do estúdio (uma raridade), Faris se justifica com o argumento de que teve a chance única de trabalhar com Charlie Sheen, um ator que todos ali na cena consideram o máximo.
O tribunal dos irmãos então segue o baile, e a partir de certo ponto fica claro que a raiva da dupla não está nas atrizes. Já quando se revelam os vilões do filme, eles assassinam sem cerimônia dois jovens personagens que se assumem como culpados originais das mortes. Depois, em meio ao bate boca, os Wayans se viram contra os dois comparsas de seu esquema de serial killer mascarado, os atores Anthony Anderson e Shaquille O’Neal, justamente dois atores negros que participaram das continuações em que não estiveram envolvidos.
A traição da causa já é peculiar em si, mas ganha contorno extra quando os irmãos alegam prerrogativas opostas para esfaquear os parceiros. Com Anderson, os Wayans viram a casaca depois de concluir que o artista fez sucesso demais, a ver as cinco indicações ao Emmy; já com Shaq, a morte vem pela raiva da dupla com o filme “Kazaam”, desastre de bilheteria que protagonizou nos anos 1990, e de sua decisão de abandonar o time de basquete do Los Angeles Lakers.
Essa sequência de acontecimentos, feita de diálogos rápidos e atos súbitos, dá ao sexto “Todo Mundo em Pânico” uma nova chave de interpretação, que fica em algum ponto entre o estranhamento e o fascínio. Em especial porque a cena encerra o filme: logo em seguida, Marlon e Shawn terminam a continuação incendiando o casarão onde se passa o clímax, declarando ao lado de Hall e Faris que a franquia agora é deles e que isso não vai mudar. A última imagem, curiosamente, envolve os quatro de costas, nus por completo na parte de trás porque as roupas se desfizeram nas labaredas —atingidos, na prática, pelo ato de dessacralização que cometeram contra a história, voltada aos jovens.
Estamos assistindo a um filme satírico, vale sempre lembrar, mas acho difícil não se debruçar sobre o momento pela verdade que ele insinua. O humor, por tradição, funciona para desarmar a realidade alheia, o que significa por consequência que ele existe em função de um objeto real. Mesmo a comédia mais rasteira, por assim dizer, atua em diálogo com uma figura ou um fato —ela se separa da dita escrita “refinada” apenas porque não oculta o seu desprezo do espectador. Por isso, prosseguimos na análise.
No caso dos Wayans, esta formulação ajuda a identificar o filme como um ato direcionado, ao invés de metralhadora ativada a esmo na plateia. Isso dá uma distinção importante ao sexto “Todo Mundo em Pânico”, que de início parece existir à deriva no recorte que faz da cultura de terror dos anos 2020 e de uma sensação de eterno retorno da série, alimentada integralmente pelo saudosismo dos fãs.
Nisso, o filme dirigido por Michael Tiddes segue a receita de bolo da franquia quase a nível de abstração. O longa organiza suas esquetes em função das paródias e larga mão de qualquer noção de fluxo de história, forçando a narrativa a um ponto de desconexão muito evidente. A trama vira de novo a desculpa para a comédia, como nos capítulos anteriores, mas desta vez também se torna um obstáculo pela nostalgia. Diversos personagens retornam do primeiro filme —incluindo o supracitado quarteto— e outros vários, mais novos, são apresentados, o que faz inchar a história a um nível insustentável.
Assim, a continuação passa a existir em torno da execução de uma porrada de personagens, em um massacre feito sem restrições de idade e a partir do humor mirado pela produção. Nesse ponto, perde-se a mão apenas porque a mecânica parece direcionada à dispensa ao invés da risada. Até chegarmos ao final chocante, muitas esquetes se banham na destruição das vítimas, usando os filmes parodiados de pretexto para mortes cruéis.
Já a piada, em tese a grande motivação, termina no escanteio, exaurida pela execução morna e, muitas vezes, frouxa. De todos os “Todo Mundo em Pânico”, este sexto é o que mais existe em favor da referência, ao ponto de retornar a esquetes do primeiro apenas por questão de tributo —repete-se por exemplo o esfaqueamento de um personagem chato, desta vez um jovem liberal, e o grito desesperado de Faris, agora na pura lógica de performance para a filha da protagonista.
Então quando a trama chega no clímax, na revelação dos Wayans como vilões, dá para encarar a cena toda como auge do cinismo da continuação, apenas um elo a mais na corrente de desprezo. Ao mesmo tempo que a interpretação é válida, ela não explica a particularidade do momento, mesmo porque a abordagem cínica define todos os filmes da franquia.
Por isso mesmo, vale entender o momento a partir da amargura transmitida pelos irmãos, em como eles se direcionam ao resto do elenco. Há aí uma mudança que transforma o entendimento do longa —não a ponto de redimi-lo de seus erros, mas o suficiente para deixá-lo interessante em vista do contexto que o cerca. Tudo porque os irmãos Wayans, naquela cena, tomam para si a autoria da série, resgatando (e expondo) uma discussão que permanece em aberto desde a sua concepção na virada do século.
Justiça seja feita, o tal debate está impresso em todos os créditos da franquia: “Baseado em personagens criados por Shawn Wayans, Marlon Wayans, Buddy Johnson, Phil Beauman, Jason Friedberg e Aaron Seltzer”. Lançado em 2000, o primeiro “Todo Mundo em Pânico” nasceu na Dimension Films a partir da colisão de dois projetos parecidos, que o estúdio juntou na base de oportunismo.
Na época, os Wayans, vindos dos bons resultados de paródias do cinema negro, desenvolviam um roteiro batizado de “Last Summer I Screamed Because Halloween Fell on Friday the 13th”, voltado a sucessos do terror. Naquele mesmo momento, a dupla de roteiristas formada por Jason Friedberg e Aaron Seltzer, autores da comédia “Duro de Espiar”, escrevia um projeto chamado “Scream If I Know What You Did Last Halloween”, com a mesma premissa dos irmãos.
Os dois filmes, tão parecidos no nome, viraram um só na Dimension, que comprou os dois roteiros e —diz a história oficial— entregou o roteiro de Friedberg e Seltzer aos Wayans. A confusão da série começa daí, a partir do momento que o sindicato de roteiristas credita todos os envolvidos pela invenção do filme original, “Todo Mundo em Pânico”. Quem veio primeiro? Quem pode ser creditado como inventor da série? A questão permanece em aberto até hoje.
Então o novo filme vira um caso de família, completo com a repetição do título original e despido da numeração tradicional. A história oficial ainda diz que os Wayans abandonaram a franquia no terceiro episódio para trabalhar em “As Branquelas”, com o veterano David Zucker assumindo o projeto. Esta versão dos fatos está no centro da contestação feita pelos irmãos no novo filme, que aproveita da nostalgia do público para acertar as contas.
O ressentimento é tão sensível da parte dos Wayans que eles chegam ao ponto de ridicularizar o culto dos fãs a “As Branquelas” no sexto “Todo Mundo em Pânico”. Mais cedo na continuação, durante uma piada com o terror “A Substância”, um dos personagens do filme de 2004 aparece rapidamente, sendo executado sem cerimônia pelo assassino encapuzado enquanto este brada que a vítima está na “franquia errada”.
Cenas como essa passam inocentes no calor do momento, mas são ressignificadas quando o desfecho insere os irmãos, autores maiores do argumento, na equação da narrativa. O novo “Todo Mundo em Pânico” se converte de repente em um grande ato de desfiguração, contraditório por excelência: os Wayans implodem a franquia a serviço do entretenimento do público, numa ação consciente para todas as partes.
A exposição deste aparato fica para o fim, mas a dupla já trabalha na cumplicidade do espectador desde o primeiro minuto, quando abrem o filme colocando a atriz Teyana Taylor para verbalizar que a sequência foi feita para o público dos Wayans. O prólogo metalinguístico, dobrado ainda por uma cena em que personagens da história assistem à cena com Teyana, também identifica um componente racial. Primeiro, a atriz diz que é negra, horrorizando os figurantes brancos ao seu redor; depois, ela afirma para a câmera que os fãs dos roteiristas não sabem ler; por último, depois de Teyana moer no soco o assassino encapuzado, os personagens que assistem à cena fazem piada do humor branco, dizendo que obras de comediantes como Judd Apatow “não fazem rir, mas deixam o espectador se sentindo inteligente”.
A metralhadora de humor é interessante demais, mesmo que todas as balas disparadas sejam de festim. O filme parece existir em dois níveis distintos, operando em favor da nostalgia imediata e também contra ela, como se levasse rancor do próprio ato de malabarismo de referências pop, que executa a rigor. É uma desfiguração sem propósito, reacionária por vocação —a continuação orbita quase sempre em torno da humilhação dos mais novos, fazendo quase um ritual das piadas envolvendo um personagem trans e outro não-binário.
O argumento da raça, exposto ainda no início, sugere que os Wayans aqui buscam retornar ao humor que os definiu no início da carreira, em uma lógica similar ao de “Vizinhança do Barulho”. O filme de 1996 era uma sátira completa do cinema sobre os bairros americanos de periferia, atuando contra a sugestão de que Hollywood abria espaço a criativos negros ao produzir histórias sobre as infâncias violentas destas regiões, como “Os Donos da Rua” e “Perigos para a Sociedade”. A sátira, ali, era a forma dos Wayans —ao lado do irmão, o produtor Keenen Ivory Wayans— baterem de frente com as limitações impostas pela indústria, ridicularizando a produção para abrir espaço a algo novo.
O grupo seguia ali os passos de gente como Robert Townsend, que uma década antes satirizou o famoso programa de TV “Ebert and Siskel” no filme “Loucuras de Hollywood”. O longa exibia a certa altura um programa chamado “Secret Movie Critics”, em que dois atores negros comentavam as estreias do cinema que conseguiam ver sem pagar, enquanto não eram presos pela polícia.
Se lá atrás, na época de “Vizinhança do Barulho”, havia ainda uma ideia de esperança, agora está nítido que os Wayans estão sóbrios demais para qualquer perspectiva de mudança social e cultural. Por isso mesmo, o novo “Todo Mundo em Pânico” se contenta na detecção do ato de vingança. A comédia se anuncia de forma seca, sem presepadas, entregando o esperado pelo público quase da mesma forma que uma máquina de moer processa a sua carne —os filmes escolhidos pelo roteiro são fatiados a rigor, sem nenhuma particularidade a eles.
Do lado dos irmãos e dos parceiros criativos, interessa somente o desejo de assumir a responsabilidade pela série, aproveitando o sucesso negado pelo passado. Ao atrair os holofotes para suas pessoas, eles garantem a sua permanência naquele lugar, retomam um espaço que acreditam ser de seu direito e enxotam eventuais adversários —o que fazem simbolicamente algumas vezes no longa, com várias facadas nos mais jovens e nos mais velhos.
Como a desfiguração está ali para a restituição, a faca dos Wayans está mais para uma espátula, espalhando sangue apropriadamente na tela, e isso tira boa parte da graça do negócio. O que sobra intocado, na superfície, é uma queimadura branca, quase imperceptível, difícil de entender até mesmo de onde veio, mas que está ali aos olhos de todo mundo na plateia.
“Todo Mundo em Pânico” está nos cinemas.


