Planejamento e execução
"A Voz de Hind Rajab", de Kaouther Ben Hania; e "A Cronologia da Água", de Kristen Stewart
Urgência é tamanha palavra de ordem de “A Voz de Hind Rajab” que o filme chega aos cinemas brasileiros numa pressa milagrosa. O longa tunisiano retrata acontecimentos ao redor da tragédia de Hind Rajab, menina palestina de seis anos que morreu abandonada nos escombros de um ataque do exército israelita ao país no começo de 2024 —no dia 29 de janeiro, para ser preciso, o que dá em exatamente dois anos antes da data de lançamento da produção no nosso circuito.
Dois anos parece muita coisa, mas o período fica pequeno quando somamos fatores como o tempo de desenvolvimento do roteiro, o tempo de financiamento, o tempo de filmagens e o tempo de pós-produção de um filme. Toda a correria é compreensível: em meio à ocupação do território palestino e o genocídio do povo, a cineasta Kaouther Ben Hania toma como vital a missão de levar o caso para as telonas, denunciando crimes de guerra que inexplicavelmente seguem diminuídos no noticiário global.
Nada disso intriga tanto quanto a proposta do filme em cima do tema. Além de recriar a operação das autoridades para salvar a menina, “A Voz de Hind Rajab” usa os áudios reais da vítima durante a ação de socorro —ligações telefônicas gravadas pela emergência, como parte do procedimento.
Desta forma, o cinema de denúncia se choca com o documentário dramatizado: enquanto atores refazem os eventos, ficcionalizando a história, a voz de Hind Rajab reposiciona o filme para algo bem mais próximo da realidade dos fatos. Tudo está tão próximo que fica difícil de entender a linha entre atuação e reação, com o elenco constantemente entregue ao horror da situação passada pelas pessoas que interpretam.
O filme é cru por um motivo, ou seja, e Ben Hania nem faz questão de disfarçar a fragilidade do aparato. O filme insere na tela o nome dos arquivos de áudio da garota em quase toda ocasião que eles aparecem, e as cenas se organizam na dicotomia básica entre os planos fechados nos rostos dos atores e o visual das linhas de som das gravações.
Como se não bastasse, o desfecho ainda recria um dos vídeos feitos na ocasião com a equipe, chegando ao limite de comparar, na frente da câmera, a encenação do filme com o registro —o foco da lente se desloca dos atores para o documento, exibido em um celular.
O risco parece calculado, e Ben Hania nessa hora se beneficia de alguns atos de boa fé do tema (urgente) e da carreira —o seu trabalho anterior, “As 4 Filhas de Olfa”, também navega entre os limites da ficção e do documentário. A emergência, as causas nobres e a ousadia parecem suficientes à plateia no geral, visto que o filme levou o grande prêmio do júri no Festival de Veneza (com muitas reclamações sobre perder o Leão de Ouro) e foi indicado ao Oscar de filme internacional.
Não acho que as causas nobres sejam um problema aqui, tampouco que a corrida para colocar a produção de pé vire obstáculo aos méritos da obra; já a suposta coragem criativa do longa me incomoda. Porque apesar da formulação intrigante e dos riscos que assume, “A Voz de Hind Rajab” também não parece lá muito interessado no cinema que formula para si.
O formato estranho nessa hora é ao mesmo tempo a grande aposta e a imensa pedra no sapato do filme. Ben Hania sugere seguir à risca a reprodução fiel dos eventos ao incorporar os áudios na narrativa, mas a recriação dos fatos desde o início se mostra perdida em um mar de imprecisões. A produção se apoia nos áudios das chamadas telefônicas de Hind Rajab e nos eventuais vídeos gravados no escritório durante o ocorrido, mas o material parece insuficiente, com muitas lacunas abertas.
A certa altura das negociações do resgate, por exemplo, um dos atendentes da central telefônica se tranca no banheiro, tomado por um ataque de pânico. O filme mostra que um colega o socorre compartilhando vídeos do trabalho, mas a ação soa perdida enquanto narrativa. Fora da voz de Hind Rajab, os personagens sofrem de um desinteresse crônico por arcos ou mesmo funções dramáticas, e tampouco servem como representações dos agentes da operação —o espectador nunca aprende os seus nomes, tampouco as suas identidades.
O que fica sugerido nesta hora intriga: afinal, o filme funciona se calcado apenas na tragédia de Hind Rajab? O questionamento fica no ar e o longa se fecha na denúncia dos horrores do genocídio e dos entraves da burocracia. A produção sabe como apertar botões para sufocar o público e causar indignação, mas sua unidimensionalidade aos poucos se torna o verdadeiro objeto de interesse na lógica de cena. Há mérito na reprodução? O grito da denúncia basta? Essas perguntas terminam intocadas na duração reduzida de 90 minutos.
De mérito mesmo, além do incentivo a tomadas de posição na política internacional, “A Voz de Hind Rajab” soa como um estímulo para um tratamento direto da causa palestina nas artes, num grito de socorro para uma discussão melhor do assunto. Ao mesmo tempo, essa intenção lembra o clima ruim de uma instalação de arte provocadora, mais interessado em reações que na própria natureza inquisitiva. Terminei o filme com a sensação de que uma oportunidade foi perdida.
“A Voz de Hind Rajab” está nos cinemas.
Enquanto escrevo, fico sabendo que “A Cronologia da Água” teve o lançamento adiado no Brasil. Uma dessas fatalidades do começo de ano nos nossos cinemas, em especial a partir da divulgação dos indicados ao Oscar e da prioridade destes títulos sobre outros, menores, talvez um pouco perdidos. A falta de uma nova data provisória no lugar da antiga, para 5 de fevereiro, me preocupa de leve.
Comentava sobre a execução falha de “A Voz de Hind Rajab”, de sua pretensa inventividade, e agora me vejo na contradição feliz de escrever sobre um filme que tem na falha a premissa de um cinema realmente intrigante. Dirigido por Kristen Stewart, “A Cronologia da Água” tem todos os sinais do debute de uma cineasta. O filme parte de ponto A e chega a um ponto B em uma dança às vezes pouco coerente, na qual sobram a demonstração de instintos e falta um bom senso no leme.
O combinado muitas vezes sai caro, mas há casos em que ele revela uma ferocidade diferente, o que me parece o caso de Stewart. Mais interessante, porém, é que acho que não é exagero dizer que a diretora faz um filme feroz, vivo à base dos momentos pulsantes que inventa e desorientado na sua própria experiência desconcertante.
Tudo isso parte do livro homônimo escrito por Lidia Yuknavitch, uma autobiografia que passeia por temas de abuso e expressão artística. O filme organiza as memórias da autora de uma maneira errática, seguindo a linha do tempo de sua infância à vida adulta enquanto se permite a pinçadas aleatórias daquela vida.
Cortes rápidos, closes fechadíssimo na estética de película, uma montagem confusa e um desenho sonoro alto completam o retrato abstrato de Lidia, a personagem vivida por Imogen Poots. Stewart se interessa pela protagonista em um nível quase subcutâneo, e os traumas do pai abusivo são a sua forma de registrar o desabrochar de uma vida que começa acuada na prisão emocional familiar.
Assim, vemos a personagem primeiro como criança, com a perspectiva fraturadíssima pelos abusos sucessivos e incompreensíveis à sua percepção (e do espectador). Depois, conforme Lidia cresce, nos afundamos sensorialmente por seus medos e inseguranças, que surgem desorganizados e bagunçam uma narrativa que se transforma progressivamente em algo mais tradicional.
Nessa progressão estranha, “A Cronologia da Água” anda aos trancos e barrancos. Alguns momentos dão a impressão de que o longa sucumbirá ao ritmo arrastado, que arrisca fazer da sessão uma eternidade; em outros, ele acha cenas de intimidade imensa, impressionantes tanto pelo que revela de Lidia como pela forma como se manifestam na atuação muito precisa de Poots.
Stewart abraça seus erros e acertos de igual maneira e, melhor, ela honra o seu compromisso com cada ideia que apresenta ao espectador. Nada na trama é jogado com indiferença ou sob falsa percepção, e o mundo de Lidia cresce a cada nova complexidade. O filme tem uma natureza inquisitiva impressionante, e se desdobra no limite estranho entre a opressão e a intimidade.
Se falta planejamento, “A Cronologia da Água” se diverte com a execução —se é que “divertir” faz sentido em uma história tão triste. Sua curiosidade e invenção mais do que compensam as falhas e deficiências óbvias, até porque sua autora parece estar ali para investigá-los.
“A Cronologia da Água” estreia nos cinemas em 2026.



