O método da derrota
"Coração de Lutador - The Smashing Machine", de Benny Safdie
Vencer é uma droga das mais viciantes. Essa afirmação não sai da boca de Mark Kerr, o protagonista de “Coração de Lutador”, mas poderia muito bem fazer parte de seu monólogo inicial no filme —o cara começa a história praticamente chapado na substância, afinal.
O atleta versa sobre o assunto quase como uma criança empapuçada pelo pirulito na boca enquanto os créditos de abertura ainda ricocheteiam na tela. Entrevistado fora da visão do público, Kerr filosofa a um repórter sobre o prazer de sair campeão dos torneios de luta livre, dando voltas e voltas com a sua voz aveludada, paciente e com quê de condescendência. Ele tenta definir o seu gozo de quando sai com o cinturão dourado dos eventos; a tarefa sai de qualquer jeito, mas a pose desvenda o seu espírito confuso.
Em paralelo a tudo isso, o Kerr que primeiro conhecemos diante das câmeras dá razão ao título original do filme, a tal da “smashing machine”. De fato, ele esmaga tudo que aparece em seu caminho, mal demorando um minuto no combate. Bastam dois ou três golpes para que o adversário beije a lona e o juiz levante os braços de Kerr, declarando-o campeão por falta de opção.
Então o clima de júbilo do prólogo vem dessa invencibilidade toda do personagem, que empilha vitórias. As filmagens da luta que abrem o longa são a síntese simples da rotina de Kerr. E convenhamos, entre triturar lutadores, empilhar títulos e receber os louros da galera, dá para entender aquele seu ânimo todo com o jornalista.
Tudo que é bom uma hora acaba, porém, e a atenção de “Coração de Lutador” mora exatamente nessa virada de chave —que acontece bem de súbito. Um corte de três anos depois, reencontramos Kerr prestes a sair de sua primeira derrota, no torneio japonês Pride. Ele perde em uma luta bem da cretina, em que o adversário apela a golpes proibidos, e o resultado pelo menos acaba anulado.
Mas o estrago está feito e, diante da submissão ao oponente, nosso campeão entra em parafuso. Ele até sai zonzo do ringue, exalando indignação ao dono do torneio na mesma atitude infantil. A cena, forte pelo silêncio, termina no lugar esperado, o do choro.
Se é para ser justo, o desfecho parece o de menos diante das circunstâncias, que sugerem um protagonista à beira do abismo bem antes dele cair desacordado no ringue. A relação harmoniosa com a namorada, Dawn Staples, trepida por instantes de desconforto, de um erro na contagem das bananas da vitamina do atleta até a briga explosiva do casal logo antes da luta. Pior mesmo, só o fato de Kerr estar ignorando o próprio vício em analgésicos, com direito ao uso de agulhas para injetar morfina.
Mas a vida de Mark Kerr só cai em desarranjo quando ele perde a luta, um momento que define a razão do conflito do filme de Benny Safdie. O diretor resgata aqui a tradição dos melodramas esportivos para recontar nas telas a queda rápida do lutador, que a partir dali entra no ringue contra si mesmo.
Nesse registro, Safdie troca a curva descendente clássica do gênero por uma espiral, mais lenta e digna de um afogamento. A troca, tão simples, influencia de maneira drástica a perspectiva do público sobre os eventos, que passeiam pelo clichê com certa jurisprudência. Ao invés de acumular erros que o encurralam na própria destruição, Mark Kerr passa a definhar mesmo quando faz o certo, o que inclui a adesão rápida ao rehab e o esforço hercúleo de corrigir a sua vida e voltar a fazer o que gosta —vencer.
Um leve spoiler: Kerr não volta a sentir o gosto da vitória, no filme e na realidade. A sua vida parece se converter em um grande tango, dramático pela relação cada vez mais explosiva com Dawn. Mesmo com toda a dedicação, ele parece impregnado pela derrota.
No frigir dos ovos, “Coração de Lutador” é um filme sobre a passagem do tempo, daqueles no qual o caminho dos personagens está ligado à meditação da própria vulnerabilidade. Na pele de Kerr, Dwayne Johnson desmonta aos poucos a invencibilidade do campeão, que gradualmente se entende como uma figura do passado. Sem entender bem o porquê, ele aos poucos é tragado para dentro das areias do tempo.
Em uma fórmula tão conhecida quanto a do filme esportivo, Safdie acha um brilho estranho nos mecanismos da derrocada de Kerr. A derrota é o ponto de referência à evolução do personagem, transformado em um azar que mais parece coisa do destino. Um raciocínio digno de quem passou o começo da carreira se interessando por losers com o irmão, Josh, em filmes como “Bom Comportamento” e “Traga-me Alecrim” —a seu jeito, eles também tratavam do ato de aceitar as circunstâncias.
Aos mais alérgicos ao gênero, o filme de luta tem aquele gosto de ressaca conhecido, que pode deixar a história um tanto arrastada, à espera dos eventos de sempre. Mas os acontecimentos em si são o de menos; o que intriga é a derrota, até pela forma como ela se impõe como método quase sobrenatural. Pobre Mark Kerr. A ele, resta mesmo a dura tarefa de aceitar o presente perdedor.
“Coração de Lutador - The Smashing Machine” está nos cinemas.


