Imagens proibidas
Os documentários do Oscar 2026
Câmeras corporais, gravações de celulares clandestinos, filmagens de discursos privados. Em comum, os indicados deste ano ao Oscar de documentário possuem um estranho fascínio pela intimidade alheia, que compartilham com o espectador de forma inusitada.
Tudo parece mesmo uma grande coincidência, mas nota-se nos filmes selecionados pelo eleitorado da Academia um desejo maior pelo olhar desconhecido. O processo se traduz na tela em uma profusão de imagens impossíveis, até mesmo clandestinas —de repente o exercício de contrabando, elemento tão importante do gênero, se manifesta de maneira firme, quase declaratória na tela.
A sina deixa a categoria desta edição do prêmio bem mais interessante que a média, sobretudo no aspecto coletivo. Os documentários indicados são muito mais interessantes quando unidos que quando separados, funcionando como um teste de limites para as relações do evento com o gênero.
Os temas urgentes ainda estão lá, apitando em cinquenta tons de emergência, mas a sensação é de que o que está em jogo no Oscar é a remodelação de uma narrativa tradicional, bem como a reconfiguração do entendimento dominante do documentário na premiação. Nada vai mudar, em tempo, mas a provocação permanece à vista de todos, pronta para atravessar a experiência do espectador e enchê-la de dúvida.
Isso vale em especial aos dois indicados que mexem diretamente com a forma, no caso “A Vizinha Perfeita” e “A Solução Alabama”. Ambos são produções adequadas a formatos populares do mercado de streaming americano, tratando de temas da seara criminal com viés de denúncia.
O primeiro, distribuído pela Netflix, flerta diretamente com a onda do “true crime”, acompanhando cronologicamente um caso de homicídio praticado em uma vizinhança do estado da Flórida; já o último, comprado pela HBO, é quadradíssimo na apresentação de abusos de poder e degradação do sistema carcerário na região do Alabama.
Apesar das diferenças, a dupla mexe no ponteiro à partir de um mesmo procedimento com seus recursos à sua disposição, inserindo novos formatos em fórmulas conhecidas.
O caso mais drástico é o de “A Vizinha Perfeita”, que monta quase todo o filme em cima de registros de câmeras corporais da polícia. O material é apresentado de forma cronológica para refazer os passos da história, e as poucas cenas do longa sem a ferramenta envolvem ainda materiais de câmeras de segurança de uma delegacia.
Essa decisão muda muito a dinâmica do documentário, que ancora o caso instigante em uma noção elementar de vigilância, estrutura esta que o aproxima dos terrores do tipo que dominaram os anos 2010, como a série “Atividade Paranormal”. De repente, qualquer imagem pode ser uma cena crucial ao filme de Geeta Gandbhir, e a história se guia neste suspense de provas e incidentes escondidos à vista, mantendo o espectador na ponta da cadeira.
Nisso, o longa navega pelos mares mais revoltosos da ética do documentário, porque há nele uma inversão de polos. A lógica do gênero sempre foi da seleção do que mostrar ao espectador, o que foi demolido em tempos de “true crime” e de excesso de exposição pública; Gandbhir trafega a produção a partir desta percepção, levando a produção a avançar o semáforo em toda ocasião apresentada —incluindo as más horas.
Uma das cenas mais fortes do filme é também a mais desconfortável do experimento estético, por exemplo, quando se mostra a família da vítima da história recebendo a notícia da morte diante da câmera de um dos policiais. O momento falta em tato e sobra em sensacionalismo, expondo inocentes em uma situação de dor brutal, mas a direção opta por incluí-lo mesmo assim. Com isso, provoca-se um contraponto à tradição, evitando a decisão de se ocultar uma cena recorrente em histórias do tipo. De repente, fabrica-se uma imagem proibida por escolha.
Essas definições do que é ou não permitido ao documentário já soam mais naturais para “A Solução Alabama”, a ponto de travar a bússola moral do filme na carolice. A produção gira de maneira adequada em torno de gravações clandestinas: toda a investigação do filme de Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman surge do contato recorrente com presidiários do Alabama por videochamadas feitas em celulares traficados nas prisões do estado. Os aparelhos servem aos condenados como forma de documentar casos de violência da segurança das instituições, o que depois vira uma peça fundamental no processo judicial ao centro da trama.
Jarecki e Kaufman são cuidadosos até demais com o material, o que transforma o didatismo do longa em uma imensa lousa de sala de aula. Infográficos, mapas e apresentações são recorrentes na narrativa, mas as filmagens clandestinas dos presidiários, de longe o material mais instigante, ficam restritas a aparições pontuais. Prejudica muito o trabalho a má qualidade das gravações, algo esperado diante das condições de vida dos autores, mas isso também soa como fator na limitação de seu uso no curso do filme —os diretores preferem uma estética limpa aos vídeos pixelizados, de imagens quebradas.
Outro tráfico de imagens muito emblemático deste Oscar é o de “Um Zé Ninguém Contra Putin”, filme do americano David Borenstein e do russo Pavel Talankin que faz a crônica da vida do último durante a invasão da Ucrânia orquestrada pelo presidente Vladimir Putin. Professor de uma escola na cidade mais poluída do país, Pavel foge da Rússia após testemunhar a instrumentalização militar do ensino pelo governo, com alunos feitos de soldados e o patriotismo entortado a níveis fascistas.
Antes da fuga, porém, Pavel aproveita a posição oportuna de documentarista para registrar a lenta descida ao inferno ideológico de seu local de trabalho. Escolhido pelo governo para gravar os professores reproduzindo os discursos mandatórios, ele coletou uma série de imagens dos colegas e alunos durante seu último ano na cidade, levando-as consigo ao deixar a cidade.
O filme que ele e David Borenstein montam a partir do material segue exatamente esta trajetória, carregando a narrativa de todo tipo de imagem instigante. As cenas feitas por Pavel mostram o desmantelamento inevitável da humanidade das crianças e dos adultos da cidade, sobretudo dos pequenos. Os alunos aos poucos perdem a espontaneidade e a ingenuidade da infância, com a lavagem cerebral do governo deixando natural a convivência com armas e a rotina de violência. Em uma das cenas mais duras, vemos crianças marchando e brincando com armas verdadeiras.
Ao mesmo tempo, o verdadeiro fascínio de “Um Zé Ninguém Contra Putin” está na impossibilidade das filmagens, mesmo que elas sejam as mais plásticas possíveis. O próprio título indica esta conotação de que as imagens, antes de tudo, são um vislumbre por trás da cortina da máquina de propaganda do Estado, produzidas quase em tempo real ao contrário da hagiografia histórica de anos posteriores.
Ou seja, dá-se a sensação recorrente no filme de que estamos diante de imagens impossíveis, mesmo que seja muito evidente ao público a sua possibilidade de existência e de registro. Essa relação ganha complexidade pela natureza do material filmado por Pavel, feito aos olhos de todos os envolvidos a ponto de permitir cenas elaboradas. Em um momento, a câmera mostra o próprio realizador apontando a câmera para uma criança que retribui o gesto com a sua arma, em uma cena reproduzida em câmera lenta. Quem filmou aquilo? A sequência foi ensaiada? Essas perguntas são deixadas de lado diante do choque provocado.
Exercícios parecidos de clandestinidade assumida acontecem em menor escala nos outros dois títulos da categoria, “Cutting Through Rocks” e “Embaixo da Luz de Neon”. Documentários de escopo biográfico, os filmes navegam por temas duros sob viés intimista, voltado aos seus personagens principais. Os realizadores abraçam a poesia naturalista, visando a discrição de suas participações para mostrar a vida dos retratados sem interferências, mas no processo encontram cenas fora do ordinário, possíveis apenas pelo contrabando de imagens.
Isso é mais evidente com “Cutting Through Rocks”, que inclui um registro proibido no meio de seu acompanhamento. O filme segue a prefeita de um pequeno vilarejo no Irã, Sara Shahverdi, que enfrenta o patriarcado local enquanto tenta ajudar a população feminina.
Desde sua campanha nas eleições até o seu mandato, a política vê seus projetos e propostas serem enterrados com processos e papeladas, que exigem uma disciplina de cunho misógino —sua posição de mulher no poder iraniano irrita as lideranças ditas tradicionais.
Se a jornada de Sara, em si, vira o arroz e feijão de sempre no documentário, o longa de Sara Khaki e Mohammad Reza Eynia ganha fôlego na guerra burocrática da prefeita, que expia uma tensão silenciosa.
Mas a coisa só engrena mesmo mais para o final da história, quando Sara, a política, grava com a câmera do celular duas broncas do judiciário local sobre sua atuação. Com o aparelho escondido no bolso, vemos na tela um borrão clássico da lente batendo em tecidos enquanto ouvimos a orientação do magistrado, que passa todo tipo de anotação machista sem filtro. Pontuais, as duas cenas tensionam a narrativa e forçam o olhar distanciado a uma proximidade até então inédita na história —e de cunho literal ainda, graças à questão da câmera no bolso.
Já com “Embaixo da Luz de Neon”, o desdobramento da narrativa se dá de forma orgânica com a abordagem íntima. O filme de Ryan White é também a crônica de uma vida, desta vez sobre a poeta e ativista não binária Andrea Gibson e seu período de tratamento de câncer terminal. Gibson morreu depois da conclusão das filmagens, mas a produção não revela a informação. Ela prefere se concentrar no registro dos últimos meses da artista com a esposa, a também poeta Megan Falley, e em sua trajetória profissional, que volta à tona em homenagens dos amigos.
White se sai muito bem em ambições tão diminutas, honrando os personagens e dando conta do que representam na comunidade. No geral, é um filme de homenagem tão às claras quanto à média dos documentários biográficos dos últimos anos, sem o componente óbvio das imagens maquiadas dos retratados —apesar da falta de críticas, o cenário do câncer terminal e do paciente impõe à narrativa um cuidado compreensível.
Mas enquanto documentário, “Embaixo da Luz de Neon” chama a atenção mesmo pelo nível de acesso aos seus personagens. O filme tem acesso completo ao dia a dia de Gibson e não recua da abordagem nem nas piores horas. Isso inclui cenas fortes, como a que a poeta e a esposa recebem a notícia de que o tratamento não funcionou e o câncer se espalhou. O momento enquadra as suas reações e não se furta de poesias, como se espera, e a dupla também não tenta se esconder da câmera.
A cena parece natural de se registrar, mas há ali uma decisão sutil do longa em não preservar as personagens. Ele derruba qualquer limite com os entrevistados para aproximar o espectador ao máximo de suas vivências, na alegria ou na tristeza, e com isso transpõe qualquer noção de artificialidade com os seus homenageados. Ainda que debaixo do véu de cenas bem enquadradas, esteticamente bonitas de se ver, encontram-se cenas com algum nível genuíno de privacidade, por mais impossível que pareça.
Ou seja, pega-se o público em um contrapé, indo contra expectativas que se sedimentam nas convenções formadas nos últimos anos. Esta definição une os documentários do Oscar de 2026, que renovam a fórmula mesmo quando a seguindo de perto. De um jeito ou de outro, a classe deste ano existe pela subversão das regras, em um traço pensado no contorno de um limite pré-estabelecido por ninguém, mas respeitado por todos. E rumar contra a corrente sempre faz bem ao cinema.
“Embaixo da Luz de Neon” está no Apple TV. “A Solução Alabama” está na HBO Max. “A Vizinha Perfeita” está na Netflix. “Um Zé Ninguém Contra Putin” estreia no Filmelier+ em 26 de março.



