Dragões de cômodo
"Manual Prático da Vingança Lucrativa", de John Patton Ford; e "Arco", de Ugo Bienvenu
A essa altura do campeonato, acho seguro dizer que “Manual Prático da Vingança Lucrativa” chega tarde na longa festa de azucrinação dos ricos. Há quase uma década em debate, o 1% da economia mundial já virou um assunto tão desgastado que o seu retrato desandou de vez para o escárnio. Ninguém sabe explicar direito o fetiche envolvido, mas há um prazer muito óbvio e imediato na ridicularização das elites, ainda mais em um momento em que a medição de fortunas se perde na altura dos bilhões e dos trilhões.
Esta rotina de humilhação do bilionário alheio está tão envernizada no imaginário coletivo que qualquer lançamento que hesite em traçar a rota ganha um gosto estranho automaticamente. É o caso do filme com Glen Powell que estreia no circuito esta semana: apesar de ter lá o seu asco pelos ricaços, “Manual da Vingança Lucrativa” está mais interessado no sobe e desce socioeconômico, o dilema mais tradicional na longeva discussão sobre a busca humana por dinheiro.
A questão determina a jornada do protagonista do longa, Becket, desde o seu nascimento. Membro da riquíssima família Redfellow, o personagem foi parido na pobreza: ainda grávida, sua mãe opta por renunciar ao seu berço de ouro para ter o filho, cria da relação com um violinista de festa qualquer. Ela e o marido morrem pouco tempo depois e Becket, sozinho, cresce sob a promessa materna de uma eventual fortuna —ele tem lugar entre os herdeiros, garante a sua mãe, mas o acesso às contas só virá após a morte de todos os outros membros da família.



